…E o justiçado. (Matheus)

Falando novamente em Oscar, dar as estatuetas de Filme e Direção para Onde Os Fracos Não Têm Vez foi, provavelmente, uma das atitudes mais justas da academia no último dia 24.
O filme dos irmãos Coen é uma mistura de cinema noir e western que explora de forma bem sucedida a degradação do ser humano. Apesar de uma história simples, os Coen fazem dessa uma aliada para analisar detalhadamente os três protagonistas e suas motivações. Llewelyn Moss (Josh Brolin) é um caçador que mora no deserto texano perto da fronteira mexicana. Ao encontrar uma mala com 2 milhões de dólares próxima a uma chacina (que deixou vários mortos e carros fuzilados), Llewlyn foge mesmo sabendo que será perseguido. Entra em cena então Anton Chigurh (Javier Bardem), o assassino que persegue Llewlyn deixando um rastro de destruição e morte pelo deserto ao mesmo tempo que ambos são seguido pelo xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), que realiza sua função de oficial da lei enquanto filosofa os rumos que a humanidade tomou à ponto de a morte virar algo tão banal.
Seria um thriller de ação como outro qualquer. Porém, o filme está longe disso. Variando entre momentos de calmaria e tensão, Joel e Ethan Coen fazem de cada aspecto técnico do filme, uma ferramenta precisa. Desde a montagem, passando pela fotografia (repleta de contrastes, principalmente nas cenas noturnas), os ambientes (desde os desertos até às cidadezinhas isoladas) e principalmente o design de som (cada mínimo barulho encontra sua função, e um tocar de telefone é capaz de provocar um susto maior que os suspenses de hoje). Curiosidade a parte, esse é também o primeiro filme dos Coen a se basear em um livro (seus trabalhos anteriores são obras criadas por eles mesmos).
O roteiro, por sinal, é fantástico. Com os diálogos bem escritos (que já é uma marca dos Coen) até às reflexões do xerife Ed Tom, somos levados a uma jornada no pensamento de três homens que mesmo sendo bem diferentes entre si, carregam entre eles a incerteza do que vai acontecer com eles próprios e com tudo ao seu redor: Llewlyn assume o risco de ser perseguido, Anton é o Mal Encarnado que deixa o destino de uma vida ser decidida por cara-e-coroa e Ed Tom é o oficial da lei que assume estar no meio de uma batalha já perdida, pois os caminhos da lei já não são suficiente para conter a criminalidade de forma eficaz.
Até mesmo o título original é justificado: “No Country For Old Men” ou “Não Há País Para Homens Velhos” se refere justamente ao velho xerife, que não consegue mais se ver como parte daquele lugar hostil. Mesmo sendo pessimista ao extremo Onde os Fracos Não Têm Vez é uma obra-prima que fala por si própria e se o seu desfecho (que vai decepcionar muita gente) não amarra bem as pontas da história, por outro lado, ele só enriquece a narrativa dos irmãos Coen. Um prêmio merecido!
3 comments 1 Março, 2008
Paris, Texas (Rafael)

Imagine a Torre Eiffel, a Catedral de Nortre-Dame, o rio Sena. Imagine o Le Monde, a misteriosa expressão facial da Mona Lisa no Louvre, a arrogância do Palácio de Versalhes. Imagine Oscar Wilde, Chopin e Jim Morrison servindo de adubo para as terras do Cemitério Père-Lachaise. Imagine luzes, encantamento, beleza e sofisticação. Agora esqueça tudo isso. Bem-vindo a Paris, Texas.
Diferente da capital francesa, a Paris texana é um árido território localizado ao sul dos Estados Unidos habitado pelo esquecimento e a desolação. É também o lugar escolhido para intitular o filme orquestrado por Wim Wenders, escrito por Sam Shepard, fotografado por Robby Muller e musicado por Ry Cooder. E todos eles, ao seu modo e de acordo com sua respectiva função, exercem fundamental participação na construção da grandiosidade de Paris, Texas. É um chute no saco na “teoria do autor”, desenvolvida por alguns cineastas da nouvelle vague, a qual afirmava que o sucesso ou fracasso de um filme é de exclusiva responsabilidade do diretor.
Paris, Texas é uma produção franco-germânica de 1984, e para o rapaz que vos fala neste momento, um dos maiores filmes da década de 80. A competência do filme dirigido pelo diretor alemão Wim Wenders refletiu-se em alguns importantes prêmios ganhos na Europa no período: BAFTA, Cesar, Globo de Ouro etc.
Paris, Texas fala sobre não ter para onde ir, sobre caminhar sem rumo e sem meta. É também um ensaio sobre a dificuldade de comunicação existente nas relações humanas. O protagonista, Travis (Dean Stanton), se apresenta como um homem com uma vida despedaçada: irmão, filho e cunhada em um canto, esposa em outro. Do início do filme – Travis solitário e sem memória vagando pela paisagem opressora do deserto americano – até o seu fim, o que vemos é a tentativa de Travis em caminhar em direção a si mesmo, sua tentativa de juntar de algum modo o seu passado destroçado.
E a trilha sonora do Ry Cooder para acompanhar nosso solitário amigo Travis não poderia ser melhor. As músicas do compositor, criadas basicamente em cima da técnica de slide guitar – um objeto deslizando pela guitarra -, reforçam o tom melancólico do filme. É como se o Johnny Cash tivesse acabado de broxar e fosse tocar um violãozinho na praia. Juntando-se ao aspecto musical temos ainda a belíssima fotografia, mostrando um céu azul limpíssimo em contraponto ao amarelo do calor desgraçado e do deserto texano.
A direção de Wim Wenders é focada no aspecto imagético da coisa, ao contrário da verborragia de diretores como Woody Allen, Richard Linklater, Denys Arcand etc. O diretor alemão dá a Paris, Texas um ritmo lento, devagar, em que as imagens assumem maior importância sobre o texto. Essa característica proporciona ótimas cenas para os olhos, como por exemplo a que Travis e seu filho caminham em lados opostos na mesma rua e aos poucos passam a se aproximar ou o jogo de reflexos no espelho em uma das cenas finais. É poesia de primeiríssima qualidade.
– Os dois são meus pais
- Por que você tem dois pais?
- Não sei. Devo ter sorte.
1 comment 1 Março, 2008
Once (Filipe)
O filme é quase uma versão mais musical de Antes do Amanhecer. Uma pianista conhece um rapaz que toca violão na rua e começam um relacionamento. O filme então se baseia em conversas e músicas sem praticamente nenhum arco dramático.
Glen Hansard e Marketa Irglova estrelam o filme como o casal anônimo (não, nós não sabemos os nomes deles, uma ironia, já muito da vida deles é revelada durante o filme, menos o nome). Marketa é estreante como atriz e Glen tem um filme no currículo, mas ambos conseguem fazer muita gente duvidar dos seus currículos (ou ausência deles): ambos conseguem mostrar personagens que, com fracassos amorosos passados, mostram certa relutância em começarem um romance.
A direção de John Carney parece saída de um documentário, como em uma cena em que filma os personagens em um Café através de um vidro, como se estivesse se escondendo. Fora que boa parte do tempo ele usa a câmera digital de mão. Outras vezes há cenas que poderiam virar clássicas, como a da personagem de Marketa voltando para casa cantando pela calçada – cena filmada em um take com travelling – e com um belíssimo significado.
Agora o roteiro, também de John Carney. As músicas desse filme poderiam ser lançadas como um álbum e seriam belíssimas do mesmo jeito. Letras que falam do sofrimento com relação ao amor de forma, incrivelmente, não-piegas. Só por esse feito, o filme já merecia qualquer prêmio de roteiro. Mas o ponto alto é realmente a música vencedora do Oscar (com todo o mérito do mundo), Falling Slowly. Tocada estrategicamente no início do filme, a música deixa você extasiado até o final, realmente muito linda.
Um dos grandes filmes do ano a passar despercebido, Once é uma pequena obra-prima que provavelmente não deve sair do anonimato, mas vai ficar guardada para sempre na memória de quem assistiu.
1 comment 29 Fevereiro, 2008
Os maiores injustiçados do Oscar (Filipe)
Na Natureza Selvagem
Devia no mínimo ter sido indicado a melhor filme. Pessoalmente achei um pouco melhor que Onde os Fracos Não Têm Vez (não assisti Sangue Negro ainda). Sei que é coisa pessoal, já que eu curto road movies, mas ao invés de os indicados terem sido Onde os Fracos Não Têm Vez, Sangue Negro e três aleatórios, deveriam ter sido os dois, Na Natureza Selvagem e dois aleatórios (pra mim, Desejo e reparação e Conduta de risco).
O filme é realmente muito bom e visualmente impressionante (aliás, também deveria ter sido indicado a oscar de fotografia). E aliás, na cena final, o Emile Hirsch não fica devendo a nenhum Christian Bale em O Operário não.
Não vou dizer que o Emile merecia uma indicação porque tinha peso pesado na categoria dele, mas como estão falando que o Depp não estava isso tudo no Sweeney Todd, talvez o Emile merecesse sim.
Para terminar, tiraria Jason Reitman dos indicados a melhor diretor (desse jeito vão pensar que eu odeio Juno, mas não!) e colocaria o Sean Penn.
Além de tudo, conta com a ótima trilha sonora feita por Eddie Vedder.
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
No mínimo devia ter ganho o Oscar de melhor filme estrangeiro. No mínimo devia ter sido indicado a melhor diretor.
Este é com certeza um dos melhores filmes do ano passado e só não venceu Oscar porque os velhinhos old school que julgam os filmes não vão com a cara de filmes inovadores tecnicamente falando. E esse filme é no mínimo, justamente, inovador. Dá para contar nos dedos das mãos a quantidade de cortes que têm no filme, fora que os movimentos de câmera são raríssimos, criando um filme extremamente arrastadado e angustiante (assim como o aborto, que não parece acabar nunca). Mas ao contrário de outros filmes, que podem ter isso como defeito, essas características só dão mais tempo para você apreciar as brilhates atuações de todo o elenco e os belos diálogos.
Há duas cenas que são destacadamente maravilhosas: a do jantar e a do feto. A primeira por conseguir resumir tudo o que está passando a personagem principal sem nenhum movimento de câmera ou corte, a outra por ser realmente chocante sem precisar de adereços pós-filmagem para isso.
Outro ponto crucial para o filme é a fotografia extremamente crua e uma paleta de cores com tons bem abatidos.
Ganhou a Palma de Ouro com toda a justiça. Só os velhinhos old school do Oscar que não enxergam a maravilha que assistiram.
2 comments 26 Fevereiro, 2008