A Vida Dos Outros (Rafael)

9 Março, 2008

A Vida Dos Outros (Das Leben der Anderen), 2006, Alemanha, Florian Henckel von Donnersmarck.

2:54 da tarde. Faltam 6 minutos para o início da sessão 9 no cinema quando aperto o botão do elevador. Os cabos de aço impedem a queda livre enquanto o olho da câmera de segurança observa atentamente meus movimentos. Para Benjamin Franklin, “aqueles que abrem mão da liberdade por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança” – nada que já não saibamos e ignoramos. Abro o portão e então, observado pelos olhos negros de outra câmera, saio da minha ilusão de segurança para ir ao encontro da concreta falta dela.

Faltam 3 minutos para o início da sessão 9 no cinema quando as luzes do Sol estão rachando minha pele e derretendo meu cérebro. Após alguns minutos caminhados substituo calor, buzinas e bate-estacas por frio artificial e sussurros de conversa. Pessoas sem rosto caminhando apressadamente com um pouco de suas vidas depositadas em sacolas. Na fila do cinema, olho para trás e vejo um cartaz com a figura de um homem de feição rígida a olhar com penetração para um ponto desconhecido. Já dentro da sessão, é interessante notar a sensação de que todos são culpados até que se prove o contrário, solitárias cadeiras vazias separando pessoas de outras. Passaram-se 3 minutos para o início da sessão 9 no cinema quando percebo que o trailer do novo filme do Gus Van Sant impediu que eu perdesse os momentos iniciais de A Vida Dos Outros.

O filme alemão vencedor do Oscar de Melhor Estrangeiro em 2007 tem a assinatura na direção e no roteiro de Florian Henckel von Donnersmarck, sendo esse o seu segundo filme. Misturando ficção e realidade histórica, A Vida dos Outros faz um relato da fictícia Operação Lazlo, tendo como contexto a Alemanha Oriental de 1984 – as semelhanças entre o filme e o livro do George Orwell não se limitam à data em que se passa o enredo. Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é um dos investigadores da Stasi, a polícia política da República Democrática Alemã. Wiesler, indicado pelo capitão Anton Grubitz (Ulrich Tukur), torna-se responsável pela espionagem da vida do dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Coch), utilizando-se para isso de câmeras secretas e escutas espalhadas por toda a residência do escritor. O objetivo da investigação é de encontrar qualquer resquício de subversão ou aversão ao regime socialista na vida de Georg Dreyman.

Em relação à interpretação do elenco, Ulrich Mühe se destaca. A frieza e a aparente falta de sentimentos do investigador da Stasi é muito bem interpretada pelo ator, apresentando durante o filme uma feição rígida e dura. Em nenhum segundo sequer é possível ver na expressão de Gerd Wiesler qualquer tipo de sorriso, o cara é quase um Robocop “socialista” sem sentimentos criado pela Stasi.

O aspecto técnico do filme funciona mais como plano de fundo para o ótimo enredo. Os diálogos cheios de entrelinhas são um dos pontos fortes. Em uma sociedade marcada pela censura, qualquer palavra dita pode ser usada pelo Grande Irmão como prova de um crime. Já a direção de Florian Henckel é caracterizada pela sobriedade e o uso de câmeras fixas, nada que fuja do convencional – o que, no entanto, não é exatamente um fator negativo. Outro ponto forte do filme é sua fotografia pesada e azulada, assinada por Hagen Bogdanski, a qual encaixou-se muito bem com o inverno de Berlim Oriental. Evito nesse texto qualquer análise ou divagação acerca do conteúdo temático do filme por poder ser extremamente prejudicial para aqueles que ainda não o assistiram. Limito-me a dizer que a película perpassa por temas com uma enorme naturalidade: ascensão e queda do “socialismo”, cumplicidade, falta de privacidade, esperança, voyeurismo etc. É mais um grande filme alemão.

Passaram-se 133 minutos para o início da sessão 9 no cinema quando A Vida Dos Outros anuncia seu fim. É emocionante observar as luzes clarearem a sala enquanto sobe a trilha sonora do filme. Mantenho-me alguns segundos sentado na cadeira, ainda submerso em outra atmosfera. Junto com outras pessoas, me levanto. Todos caminhando vagarosamente, com olhos cheios de cumplicidade, como se estivéssemos em comunhão espiritual após passar por uma experiência única juntos. Saio da sala e ao olhar para o lado me deparo com a senhora que se sentava na cadeira à direita da minha. Nossos olhos cheios de ternura, de raiva e esperança, e a certeza de que, mesmo que por algumas horas, o olhar do outro refletia um mesmo sentimento: odiávamos o Grande Irmão.

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4 Comments Add your own

  • 1. Filipe  |  9 Março, 2008 at 11:32 pm

    por coincidência, assisti esse “novo filme de Gus Van Sant” hoje, muito bom hein

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  • 2. Murillo Leal  |  2 Maio, 2008 at 11:46 am

    Cara, perfeito a alusão ao livro de Orwell. Principalmente o desfecho do seu texto.

    Parabéns!

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  • 3. Violência Gratuita (Rafael) « fora de foco  |  3 Setembro, 2008 at 8:10 pm

    [...] técnica. No filme de 97, por exemplo, quem interpretou George foi o excelente ator Ulrich Muhe, de A Vida Dos Outros.  O diretor austríaco Michael Haneke (Cachè, A Professora de Piano) dessa vez dirige Naomi Watts [...]

    Responder
  • 4. funny games « blog do daniel  |  10 Janeiro, 2009 at 9:17 am

    [...] técnica. No filme de 97, por exemplo, quem interpretou George foi o excelente ator Ulrich Muhe, de A Vida Dos Outros.  O diretor austríaco Michael Haneke (Cachè, A Professora de Piano) dessa vez dirige Naomi Watts [...]

    Responder

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