A Leste de Bucareste (Fernando)

6 Março, 2008

a_leste_de_bucareste.jpg

Cornelius Porumboiu, A fost sau n-a fost?, Romênia, 2006.

E se um dia descobríssemos que Vargas não apontou serenamente um revólver nem escreveu uma carta-testamento em caligrafia impecável? E se nos fosse revelado que as Diretas não nasceram do grito do povo, mas de alguns pauzinhos mexidos em gabinetes fechados a sete chaves? E se constatássemos que ainda somos os mesmos e a história não mudou de rota, mesmo após a ocorrência de fatos aparentemente tão imponentes? De forma bem humorada, é esse o questionamento que A leste de Bucareste propõe ao espectador.

Demonstrando a força atual do cinema romeno, o filme, lançado em 2006 pelo cineasta Cornelius Porumboiu, venceu a Câmera de Ouro no mesmo ano em Cannes, prêmio concedido a diretores estreantes. O filme relata o encontro de três cidadãos no dia 22 de dezembro de 2005 – 18 anos após a derrubada do ditador comunista Nicolae Ceausescu – que se reúnem em um programa local de televisão para responder à seguinte questão: houve ou não houve uma revolução espontânea promovida pelo povo de uma pequena cidade na Romênia?

O filme se divide em duas partes. Na primeira, somos apresentados aos três protagonistas. Aos poucos vamos descobrindo um pouco sobre suas personalidades: o professor Manescu, convidado para participar da discussão sobre a revolução, é um alcoólatra e vive constantemente rodeado de credores. O apresentador e dono da emissora de TV, Jderescu, é um pseudo-intelectual, que busca na enciclopédia frases famosas para citar – de maneira infeliz, diga-se de passagem – em seu programa. O senhor Piscoci, talvez o mais engraçado dos três, é conhecido localmente por ter se vestido de Papai Noel em dezembros passados.

A segunda parte da estória é toda preenchida pela exibição do programa de televisão. A câmera do filme se confunde com a da TV e, pelo menos nos próximos 30 minutos, vemos uma conversa desinteressante e desinteressada sobre os acontecimentos de 89. É a oportunidade ideal para que o diretor acrescente um tipo de humor lânguido e corrosivo. Através das ligações de alguns telespectadores irritados, inclusive de um ex-agente da Securitate (a polícia secreta romena), a pequena cidade contesta veemente a versão de Manescu de que ele e alguns amigos, heroicamente, teriam feito girar a roda da história. Eles estão estacionados no tempo e, por isso, Jderescu impede que sejam tocadas músicas latinas ou realizados movimentos de câmera na mão na grade de programação da sua TV.

Tecnicamente, o filme é simples. Sem uma fotografia deslumbrante ou virtuoses, o enredo bem contado é que confere vivacidade à película. Aos poucos, A leste de Bucareste também relata um pouco do cotidiano do povo romeno. O humor sutil e destrutivo, aliado às cores desgastadas, reforçam a idéia de um país que ainda busca a sua própria identidade. Quando os alunos de Manescu escolhem a Revolução Francesa como tema da prova não é por acaso, afinal, nada pode ser tão desinteressante como sua própria história.

Pouco interessado em reconstruir com fidelidade os aspectos históricos da ruptura que derrubou o então ditador Nicolae Ceausescu, A leste de Bucareste tenta muito mais ironizar a utopização dos movimentos sociais e demonstrar que as pessoas estão muito mais interessadas em comprar presentes de natal do que necessariamente comemorar aquilo que, supostamente, deveria ter mudado o curso de suas vidas. Portanto, o cinema de Porumboiu é diametralmente oposto ao de Ken Loach ou de Costa-Gavras, em que as imagens na tela são praticamente preenchidas por indivíduos conscientes do coletivismo e da politização das relações sociais. Não é que os romenos não tenham consciência da revolução, mas é que para eles parece não ter muito significado. Apenas uma data, que pode até ter deixado suas marcas – certamente não tão grandiosas como contam os livros de História.

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4 Comments Add your own

  • 1. Filipe  |  6 Março, 2008 at 9:56 pm

    deixa eu adivinhar: telecine, esses dias?

    aqui não tem telecine, então vou ter que me virar pra assistir esse filme, deve ser muito bom mesmo

    só lembrando que o cinema romeno já lançou um dos melhores filmes do ano passado (4 meses, 3 semanas e 2 dias)

    Responder
  • 2. Júlia  |  6 Março, 2008 at 10:23 pm

    otimo texto…otimo jogo de palavras e argumentaçao sobre o filme….
    poxa, adorei o blog, e vc escreve muito bem.
    parabens!!!

    Responder
  • 3. raquel  |  6 Março, 2008 at 10:25 pm

    bom texto, bom texto..parabens!

    Responder
  • 4. rafaelsantos  |  7 Março, 2008 at 1:35 pm

    Bem legal o texto, Júnior ;)

    Tinha visto o filme na programção do Telecine mas a sinopse não havia chamado muito a minha atenção. Próxima vez que passar vou tentar assistir.

    Como você mesmo observou, a temática do filme poderia muito bem se adaptar à realidade do nosso país.

    ;]

    Responder

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